domingo, 11 de dezembro de 2016

Caderno do tráfico: bando movimentava até R$ 34 mil por dia em São Caetano

As anotações especificam dívidas e quantidade de drogas dos meses de julho a novembro deste ano

No lugar de uma planilha, com tabelas e gráficos, comum em qualquer escritório, um simples caderno de anotações, cheio de letras grandes, rabiscos e folhas amassadas. Meros detalhes, não fosse a procedência e as informações contidas nele. Apreendido no dia 17 de novembro, no bairro de Capelinha de São Caetano, o caderno revelou à polícia a movimentação financeira de uma das quadrilhas lideradas por Washington Davi Santos da Silva, o Boca Mole, 30 anos, que comanda o tráfico na região e na Fazenda Grande do Retiro. Entre muitos cálculos, o faturamento de um único dia chegou a R$ 34 mil.

As anotações especificam dívidas e quantidade de drogas dos meses de julho a novembro deste ano. As transações financeiras incluem ainda depósitos, compra de motos roubadas e pagamento de advogados. Também na Capelinha de São Caetano, a polícia descobriu, com a prisão de Patrick Santana, no último dia 29, transações bancárias de outra quadrilha comandada por Boca Mole. Tudo estava em uma agenda escolar, apreendida na casa de Patrick, que cumpre pena no Presídio Salvador.

Embora esteja na prisão de segurança máxima de Serrinha desde 2013, Boca Mole, que segundo fontes da polícia é ligado à facção Bonde do Maluco (BDM), ainda mantém o comando do tráfico nos dois bairros. O BDM tem como líder o traficante José Francisco Lumes, o Zé de Lessa, procurado pelas polícias Federal e Civil.

Faturamento
O caderno, com mais de 50 páginas, foi encontrado durante uma operação de agentes da 4ª Delegacia (São Caetano). Também foi apreendido um total de R$ 150 mil em drogas - quatro quilos de maconha e três de cocaína, além de uma pequena quantidade de crack. O local era investigado pelos agentes como um dos pontos de venda de Boca Mole.

Com a chegada da polícia, um homem que ocupava o imóvel fugiu e deixou para atrás, além da droga, o caderno contendo uma das movimentações financeiras do BDM na área de São Caetano. Em uma das páginas, o somatório de valores indica que o faturamento da quadrilha já chegou a R$ 34 mil. “Aparentemente, é um negócio rentável, já que os valores são significativos. Esse caderno pode ser de uma área específica, mas ainda temos vários fatores para analisar”, declarou o responsável pelas investigações, o delegado Nilton Tormes, titular da 4ª Delegacia.

Na contabilidade do tráfico, a maconha é chamada de “massa”, cocaína de “peixe”, crack é “óleo” e nenhum dos clientes é identificado pelo nome, mas sim por apelido. De acordo com o delegado, para evitar que toda a transação fosse descoberta, em caso de a caderneta cair nas mãos da polícia – o que acabou acontecendo –, os traficantes usavam códigos, que foram decifrados pelo Serviço de Inteligência da 4ª Delegacia.

O caderno mostra que Boca Mole tem habilidade para os negócios. A maioria das transações é realizada à vista – os pagamentos variam entre R$ 500 e R$ 10 mil – e em grande quantidade. As mercadorias são entregues em quilos ou em caixas. Entre as localidades mais rentáveis da quadrilha está o Campo, que fica na própria Capelinha – em um dia, faturou R$ 18 mil. Em poucos casos, as negociações são para pagamentos posteriores, em que faturamentos futuros chegam a R$ 15 mil. Entre os dias 1° e 15 de novembro, foram feitos dez depósitos, que somam R$ 8,5 mil.

Expansão
Segundo o delegado Nilton Tormes, alguns detalhes chamaram a atenção dele, como o fato de aparecer entre as anotações o nome “Brotas”. Em um dos casos, no dia 26 de outubro deste ano, Brotas está relacionada à aquisição de duas caixas de peixe no valor de R$ 20 mil. E não é um caso pontual. No dia 10 de novembro, três caixas de óleo foram entregues para Brotas.

A situação pode ser o indício de que a quadrilha está expandindo o fornecimento para o bairro de Brotas – controlado pelo BDM – ou outra condição. “Pode ser uma forma de rebatizar, entre eles, uma área que o lucro vem aumentando. Estão o tempo todo fazendo algo para dificultar a investigação. Brotas pode ser uma área, mas a gente precisa de uma investigação aprofundada”. (Correio24h)

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