sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"Um PM despreparado destruiu minha família", diz pai de morto em ônibus

Família do passageiro morto no ônibus criticou ação de policial
Desesperada, Geralda, mãe de Cleverton (destaque), acariciava rosto do filho no caixão: "Arrancaram tudo de mim"
“Um policial despreparado destruiu a minha família.” Esse é o sentimento de um pai que perdeu o filho, atingido pelo tiro de um policial militar que reagiu a um assalto, dentro de um ônibus do Transcol. O crime aconteceu na noite da última quarta-feira, dentro do coletivo da linha 505 do Transcol, na orla da Praia de Camburi, em Vitória.
Cerca de 40 pessoas estavam no ônibus no momento do assalto. O passageiro Cleverton Oliveira Cabral, 29 anos, foi baleado e morreu no local. Ele foi obrigado por um assaltante, Fábio Pereira dos Santos, 36, a recolher os pertences dos passageiros, enquanto era ameaçado de morte pelo criminoso.


Um vigilante de 43 anos também ficou ferido pelos disparos do subtenente da PM Claudison Mendonça Barbosa e está internado. Ele foi atingido no braço esquerdo e permanece internado no hospital Jayme Santos Neves, na Serra.
O empresário Glaucir Silva Cabral, 50 anos, pai de Cleverton, criticou a ação do subtenente e afirmou que teve a família destruída pela ação. “Ele agiu de uma forma péssima. Um péssimo preparo. Falta de estrutura e conhecimento. Um policial despreparado destruiu a minha família”, ressaltou o empresário.

Glaucir ainda reforçou as críticas à forma de agir do militar e disse que mais pessoas poderiam ter sido mortas pelos disparos. “Um policial com um bom tempo de profissão e faz um negócio desses. Atirar no meio de um monte de pessoas inocentes. Atirar no meio de crianças e pais de família, que não tinham nada a ver com isso, um despreparo grande. Falta de estrutura e conhecimento.”

Pessoa séria
O pai ainda falou um pouco sobre o filho e fez questão de ressaltar que ele sempre foi trabalhador. “Era uma pessoa séria e honesta. Não merecia passar por uma situação dessas. Ele deixou uma filha de apenas 2 anos. Morava há três anos com a mulher dele”, disse Glaucir. O filho trabalhava há três anos em uma loja de departamentos no Shopping Vitória como fiscal de loja.
Para Edione Soares, de 48 anos, tia do rapaz, a indignação toma conta. ”A polícia diz que não podemos reagir a um assalto, mas eles mesmo reagem no meio de muita gente. Tem uma menina de dois anos que não tem mais o pai, que era trabalhava e lutava para protegê-la”.

Legítima defesa

Para a polícia, o subtenente agiu em legítima defesa, mas as investigações do caso continuam e serão feitas pela Divisão de Repressão aos Crimes Contra o Patrimônio (DRCCP). Em depoimento prestado na 1ª Delegacia Regional de Vitória, o policial disse que atirou contra assaltantes para se defender.

Revolta

A doméstica Geralda de Oliveira, 49 anos, mãe de Cleverton, se desesperou ao ver o caixão do filho durante o velório. “Uma angústia desde da hora que eu acordei tomava conta de mim, na quarta-feira”, contou a mãe. 

Quem era o Cleverton?

Um menino trabalhador, não tinha vícios, não fazia nada errado. Nunca teve preguiça, meu filho era um batalhador, um pai de família.

Ele já havia sido assaltado antes?
Sim, há mais de um ano. Ele voltava do trabalho dentro do ônibus, mas não levaram nada dele. Eu sempre falava “nunca reaja, meu filho”. E sei que ele não reagiu ontem (quarta-feira), aí veio um maldito e tirou a vida dele.

Como a senhora vê sua vida agora?
Podiam ter tirado a minha vida, mas não me tirassem ele. Meu filho dizia “mamãe querida” quando brincava comigo. E, depois de tudo que passamos pro causa do tratamento de câncer, dizia que eu era a guerreira dele. Arrancaram um pedaço de mim.

O que espera que aconteça com os envolvidos no crime?
Meu filho foi mais uma vítima da violência. Amanhã será o filho de outra pessoa. Se todas as pessoas tivessem uma mãe como Cleverton teve, não haveria bandidos. Não quero que nem a mãe do policial nem a mãe do ladrão sintam a dor que hoje eu estou sentindo. O policial, que deveria dar segurança, tem que ser afastado. O bandido, esse não tem mais nada a perder. Eu perdi tudo o que eu tinha. Espero a justiça.

“Foram minutos horríveis que eu quero esquecer”
Do momento em que o assaltante entrou no Transcol até o desfecho trágico do caso, os minutos foram marcados por muita tensão, segundo passageiros do ônibus.
De acordo com uma das testemunhas, um auxiliar de operação, de 40 anos, o criminoso estava visivelmente nervoso e fazendo terror psicológico.

“Como ele estava com uma arma falsa e o ônibus cheio, acho que ele ficou com receio de alguém reagir. Então a todo momento mandava a gente ficar de cabeça abaixada e dizia que se não fizessem o que ele estava mandando ele ia atirar, ia matar. Quando ele chegou ao fundo do ônibus ouvi os tiros. Foi desesperador. Minutos horríveis que eu quero esquecer”, lembrou.

Já um frentista, 28, contou em depoimento que o criminoso exigiu primeiro que um senhor pegasse a mochila para recolher os materiais, mas o senhor não entendeu. Foi então que mandou que outro passageiro recolhesse, mas o rapaz estava tremendo. Irritado, ele pulou a roleta e exigiu que Cleverton o ajudasse. O frentista completou que o assaltante fazia ameaças. (Fonte: A Gazeta)

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